Texto de Henrique Neto
Nas últimas semanas tem-se falado muito da juventude portuguesa que está à rasca e da dificuldade dos jovens encontrarem em Portugal um emprego e, se possível, uma carreira. No programa Prós e Contras desta semana, o assunto foi debatido até à exaustão, mas, infelizmente, com mais retórica do que verdade. Principalmente porque a questão do desemprego não teria de ser assim e o debate foi a esse respeito cheio de justificações e de lirismo, mas pobre de ideias e de soluções.
Vejamos o que não foi dito e que há vinte anos já sabemos: (1) que o modelo económico português é obsoleto e está errado para o nosso tempo; (2) que as centenas de cursos superiores existentes de lápis e papel formam homens e mulheres para o desemprego; (3) que o insucesso escolar próximo dos quarenta por cento e sem qualquer aprendizagem séria de uma profissão, limita a qualidade da generalidade dos postos de trabalho e a produtividade das empresas; (4) que as empresas que fazem meros investimentos financeiros no estrangeiro consomem os recursos para investir em Portugal; (5) que as despesas excessivas do Estado e o crescimento dos impostos para as pagar, secam o dinheiro necessário para as pequenas e médias empresas investirem e exportarem; (6) que o facilitismo e a falta de exigência do ensino, reduz de forma significativa a qualidade dos licenciados e, principalmente, a sua cultura cientifica, factores absolutamente indispensáveis numa economia produtiva moderna; (7) que a ausência de ideias, de estratégia e de disciplina dos governos, conduziu a investimentos de baixa ou nula rentabilidade e ao endividamento do Estado, das famílias e das empresas; (8) que os chamados custos de contexto, como a energia, telecomunicações, burocracia, justiça, expulsam os investimentos nacionais e estrangeiros; (9) que a ausência de políticas sectoriais e a ausência de negociação competente em Bruxelas deixou morrer a agricultura, as pescas, a metalomecânica pesada e o sector ferroviário, ao mesmo tempo que protegeu as grandes empresas e grupos económicos abrigados no mercado interno; (10) que os governos abriram as portas à imigração, para manter baixos os salários e dar vazão ao despesismo do Estado em obras públicas e para garantir os lucros das empresas do regime.
Poderia acrescentar muitas mais razões para a estagnação da economia portuguesa e para a fuga de Portugal, em direcção a outras paragens, de empresas nacionais e internacionais. A economia portuguesa retrocedeu relativamente aos outros países europeus durante toda a década e não foi a crise internacional que nos conduziu até aqui, como se pretende fazer crer, mas foram os erros dos governos e a sua incapacidade atávica de compreender os reais problemas da economia portuguesa e os constrangimentos e as oportunidades da economia mundial.
Ao longo dos anos tenho proposto soluções que são praticamente o inverso do que tem sido feito. No topo das prioridades está o ensino, começando com o pré escolar, para garantir a igualdade de acesso e maior exigência em todos os níveis, com mais trabalho, qualidade e duplicar o número de licenciados das áreas das ciências, nomeadamente das engenharias. Na economia, terminar com o favoritismo às empresas dos sectores de bens não transaccionáveis, aumentando a concorrência e reduzindo os custos operacionais dos sectores produtivos, em particular da exportação. Reduzir drasticamente as despesas do Estado, parar a obsessão com as obras públicas, adiar os grandes projectos, renegociar as parcerias público privadas e começar a reduzir a dívida pública. Adoptar a estratégia euro atlântica, dinamizar o transporte ferroviário e marítimo de mercadorias e reformular o porto de Sines para receber os grandes navios porta contentores e atrair o investimento estrangeiro. Poupar energia, através do transporte colectivo e tornar mais caro o uso individual do automóvel. Dinamizar a agricultura e as pescas, com o objectivo de reduzir a nossa dependência alimentar e usar critérios de qualidade para reduzir as importações.
Os erros do passado não vão desaparecer por milagre e os jovens, como aliás todos nós, vão pagar caro por esses erros e durante muito tempo. Por isso é o momento de acabar com as injustiças relativas provocadas pela corrupção, pelo enriquecimento ilícito e pelas mordomias criadas através do favorecimento político das áreas do poder. É a condição necessária para juntar todos os portugueses ao redor do desígnio de dar seriedade à actividade politica, dividindo os sacrifícios por quem melhor os pode pagar e juntar todas as energias nacionais para revigorar a economia produtiva e exportadora. As novas gerações merecem isso.
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